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O feminismo, os estigmas iniciais e a dor das desconstruções.

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Usualmente, mas não em regra, o primeiro contato com o movimento de cunho social, político e econômico – vale ressaltar – que defende a igualdade entre homens e mulheres é permeado por ceticismos e uma porção de estereótipos, afinal, vivemos em uma sociedade que naturalmente associa feminismo a nazismo, mulheres que odeiam homens, realizam abortos o tempo inteiro, queimam sutiãs em praças públicas e são, por definição, malucas.

Há também quem ache que feministas não lavam louça, são ditadoras dentro de seus lares e, essencialmente, proibidas de terem filhos ou constituírem uma família.

Até que feminismo é “modinha” eu já ouvi falar, afirmação no mínimo engraçada e irônica uma vez que ninguém ganha uma estrelinha dourada ao se auto afirmar feminista, é quase como se acreditassem que existe uma espécie de glamour, status, e boa fama ao se declarar como tal, quando na realidade o que acontece é justamente o contrário: você se pega debatendo com o seu tio no meio do churrasco de família acerca de suas piadas machistas e “inofensivas”, vira a “chata” e “problematizadora” do grupo de amigos, desfaz relações porque eram permeadas por abusos, muda hábitos e tenta romper com toda uma cultura que coloca mulheres como rivais. Que modinha mais difícil e exaustiva, heim?

Quando o assunto vem à tona na mesa de bar ou encontros com colegas, sempre tem aquele amigo preocupado em esclarecer que:

até concorda com algumas pautas feministas, mas as extremistas…”

E a partir desse ponto segue todo um discurso de desqualificação de um movimento que, assim como todos os outros, é múltiplo e possui diversas vertentes, inclusive com diferentes níveis de radicalismos.

A primeira desconstrução acaba sendo, então, justamente a de que feministas são – pasmem – apenas mulheres que de alguma forma estão insatisfeitas com o local que lhes foi delimitado na sociedade apenas por serem mulheres.

Nós sucumbimos à exaustão, não? Nos cansamos dos assédios nas ruas, da violência – seja ela psicológica, física, sexual ou patrimonial -, das ofensas que chamam de brincadeiras, das pressões estéticas injustas e irreais sobre nossos corpos, da fetichização e objetificação, das rotulações, de justificarem diferenças sociais com base em disparidades biológicas, do nosso Congresso composto por uma maioria esmagadora de homens.

O feminismo critica uma opressão específica, é um movimento importante porque, por exemplo, enquanto homens sofrem violência fora do ambiente doméstico, uma mulher, por outro lado, é em sua maioria agredida dentro do próprio lar, apenas por ser mulher.

No meu caso, descobrir a complexidade da luta e principalmente que ela vai muito além do que é erroneamente difundido dissolveu por si só muitas angústias: pela primeira vez eu não me sentia sozinha naquele mar de abusos abafados colecionados ao longo dos anos.

De repente, não era mais normal aquele homem que tinha passado a mão por debaixo do meu vestido no trem. Ficou esquisita aquela história do namorado que fazia chantagem emocional.

Não estava tudo bem aquele parente esmurrar a mulher toda vez que chegava bêbado ou insatisfeito em casa.

Tinha algo de muito estranho nisso da gente odiar tanto o próprio corpo a ponto de se render a dietas malucas, assistir amigas desenvolvendo quadros de bulimia, anorexia, depressão e ansiedade. E aquele cara que ignorou o seu “não”? E saber de um, dois, três, quatro casos de estupro só no seu círculo social minúsculo de mulheres que tiveram coragem de admitir e relatar, tudo bem? Não estava tudo bem. Nada disso era normal.

É por isso que, para além de extremamente libertador, o feminismo é dolorido. Perceber que todas aquelas situações – antes postas como naturais – na verdade se configuram como abuso, provoca muita angústia, impotência e revolta.

O processo de dissolução de traumas e reconhecimento de vulnerabilidades é severo, por vezes nos sentimos claustrofóbicas pela convivência com o machismo que se encontra mascarado em todo lugar, mas é a partir destes reconhecimentos que também é possível se fazer maior, por um mundo menos desigual para mulheres.

1 COMENTÁRIO

  1. Muito importante essa discussão. Vivemos em tempos de discursos vazios, muito se fala dos extremismos e pouco se conhece dos movimentos e suas raízes.

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